Um estudo do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), publicado na revista Clinical Infectious Diseases, mostrou que indivíduos que já tiveram dengue têm um risco duas vezes maior de desenvolver sintomas caso sejam infectados pelo coronavírus.

Os pesquisadores analisaram amostras sanguíneas de uma coorte de 1.285 pessoas do município de Mâncio Lima, no Acre, onde desenvolvem pesquisas sobre malária e, mais recentemente, sobre Covid-19. O grupo realiza questionários e coletas na região duas vezes por ano para fazer estudos epidemiológicos.

“Esses dados sugerem haver uma interação entre as epidemias de dengue e Covid-19, uma agravando a outra, algo que se convencionou chamar de sindemia. Ambas afetam os setores mais vulneráveis da população”, afirma o coordenador da pesquisa, Marcelo Urbano Ferreira. De um lado, as populações mais expostas à dengue, por fatores socioeconômicos e demográficos, são mais suscetíveis a ter sintomas durante a infecção por SARS-CoV-2. Além disso, a pandemia prejudicou todas as campanhas de controle da dengue.

A idade é outro fator relevante que foi considerado no estudo: em geral, quanto mais velho, maior a chance de ter Covid-19 sintomática e maior a probabilidade de ter sido exposto à dengue. No entanto, em Mâncio Lima, a epidemia de dengue é mais recente (cerca de 7 anos), ou seja, indivíduos mais jovens têm as mesmas chances de terem contraído dengue em relação aos mais velhos.

“Nós fizemos mais de um modelo para ajustar a idade de diferentes maneiras e confirmar que esse fator não estava influenciando a associação entre as duas doenças”, explica Ferreira.

Segundo a pesquisadora Vanessa Nicolete, autora principal do artigo, o primeiro passo foi verificar a presença de anticorpos contra os vírus da dengue em amostras de outubro de 2019 e da Covid-19 em novembro de 2020, através de testes de sorologia. Também foram selecionadas 105 amostras de 2019 de indivíduos que testaram positivo para Covid-19 no ano seguinte, para verificar se eles tinham anticorpos contra SARS-CoV-2 na época e descartar a possibilidade de uma reação cruzada.

Outra etapa importante do estudo foi a identificação da variante de SARS-CoV-2 que circulava em Mâncio Lima na primeira onda. Para isso, a equipe aplicou 50 testes rápidos de swab em moradores com a doença aguda. A pesquisadora Priscila Thihara Rodrigues foi responsável por realizar o sequenciamento genético dos vírus encontrados nessas amostras, em colaboração com o grupo da Profa. Ester C. Sabino, do Instituto de Medicina Tropical da USP.

O que dizem outros estudos – Os resultados obtidos pela equipe de Marcelo Urbano Ferreira são contrários a uma hipótese levantada por outro grupo de pesquisa no ano passado, que sugeriu que a infecção prévia por dengue poderia ter um fator protetor contra o coronavírus. “Os pesquisadores analisaram dados de incidência de Covid-19 no Brasil e viram que a quantidade de casos era menor em regiões que historicamente tinham muita infecção por dengue”, afirma Ferreira.

Outro artigo, publicado pela Universidade Federal do Acre na revista Clinical Infectious Diseases, também sugeriu essa associação ao investigar o histórico de infecções prévias por dengue em pacientes que tinham sido hospitalizados com Covid-19, através de questionários por telefone. A maior parte dos óbitos no grupo estudado foi de pessoas que, em tese, nunca tiveram dengue.

Segundo o cientista, a diferença nos resultados pode ser explicada por alguns fatores. O primeiro estudo teve uma abordagem rápida ao trabalhar com dados já existentes, porém são dados agregados – ou seja, não foram analisados de acordo com diferentes características, como a idade, por exemplo. Já no outro estudo, os dados coletados dependem da memória dos pacientes sobre ter tido ou não a doença e de um diagnóstico que não necessariamente foi preciso.

“A dengue é uma doença de difícil diagnóstico clínico, pois os sintomas são comuns a várias outras infecções virais. Além disso, a maior parte dos casos é assintomática, então muitos indivíduos podem ter sido infectados sem saber. O teste sorológico é muito mais confiável nesse sentido”, esclarece.

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